O Continente
Entre o reconhecimento o esquecimento, um gigante adormecido.
Sempre li muito, mas - contraditoriamente - dediquei-me muito mais a obras de não-ficção do que o oposto. Depois de velho, resolvi recuperar esta mácula de meu caráter e passei a consumir clássicos universais e nacionais. Eis que nunca tinha lido nada de Érico Veríssimo, comecei então pelo Continente - primeiro livro da trilogia “O tempo e o vento”.
Esta é um obra notável, reconhecida em compêndios de literatura e apontada sempre como nossa maior trilogia. Sabe-se também que seu modelo inspirou outras grandes obras de outros grandes escritores nacionais, fechando o rastro de influência necessário para o estabelecimento de um clássico. Entretanto, curiosamente, pouco se fala dela em meios acadêmicos.
Passei todo o curso de Letras falando pouquíssimo de “O tempo e o vento” e de seu autor. Tudo bem que neste curso se fala de inúmeras outras coisas bem mais que qualquer autor, mas este não deixa por isso de ser um dado curioso. Quando percorremos estantes virtuais em busca de obras, também vemos com muita raridade algum destes escritos figurarem no topo de vendas ou vemos menos ainda pessoas comentando sobre eles nos recantos da internet: fóruns, redes sociais, Youtube.
Podemos alegar que brasileiro lê bem pouco e é verdade. Porém, algumas obras elas atravessam nossa vida inevitavelmente. Comparemos com Jorge Amado: Capitães de Areia é quase que uma unanimidade entre a molecada adolescente. Então, conhece-se autor brasileiro, mas muito pouco esse tal de Érico.
A falta de falatório a respeito pode nos levar erroneamente a crer que isto se dá pela falta de força da obra e autor. Seria um livro bem mediano e muito focado na cultura do sul do país. Mesmo assim, segui meu plano e vamos a mais este clássico.
Nas primeiras páginas já fui tomado por um personagem cheio de contradições, agoniado com seu passado e tentando remendar seu futuro. Um noviço confessa ao padre uma vida de luxúria e seu malfadado plano para tirar a vida de outro homem, marido de sua amante. Mesmo sem execução, pesava a culpa e o atormentava a lembrança. Surge então um símbolo que atravessa a obra: um punhal. Com esta arma o assassinato foi planejado e ela foi guardada como lembrança do pecado, para sempre marcar na memória do noviço e futuro padre o que ele poderia ser. Versado minimamente em fazer partos, um dia ajudou uma índia ferida e recém-chegada à missão a dar a luz a um filho. A mãe morreu, mas o menino ficou e cresceu por ali, sempre com proximidade do padre e de seu punhal. Dado a visões de santos e do futuro, o menino afeiçoou-se da arma e com ela a tiracolo saiu pelo mundo quando estoura a primeira guerra do obra, bem durante uma invasão à missão. Pedro Missionário mais tarde encontra Ana Terra, com quem tem um filho: Pedrinho, que mais tarde dará origem a Juca e Bibiana. Bibiana casará com o capitão Rodrigo com quem dará a luz a mais três filhos. Essa é a origem da família Terra Cambará, que será a protagonista em toda trilogia e cuja formação acompanhamos de perto no primeiro Tomo de O Continente.
Pedro Missionário era místico, via coisas, e esse dom passa para seus descendentes que passam a pressentir o futuro e ajudam a dar à obra um tempero fantasioso, sem nunca sabemos em que ponto da narrativa o realismo dá espaço ao maravilhoso.
Ana Terra, mulher de Pedro, é uma personagem feminina forte sem ser feminista. Ama profundamente seu esposo e cria com dedicação seu filho, mas sempre reconhece o malfado do destino de mulher. Tão forte quanto Ana é o capitão Rodrigo, personagem que sustenta o magnético estereótipo de galã e logo mostra que seus mais visíveis atributos são também seus maiores defeitos. Um homem complexo que serpenteia entre a ânsia por liberdade e ironicamente demonstra o quanto esta ânsia o torna escravo de seu corpo, de suas vontades.
A cada nova geração e a cada novo personagem, a guerra constante, fria, desumana. A família Terra Cambará é tocada a novo conflito e a cada novo ato de guerra e política: forma-se a fronteira do Rio Grande e os poderosos movimentam seus subordinados para morrerem em seu nome.
Em tempos de grandes adaptações cinematográficas de obras como Game of Thrones, impossível não imaginar uma adaptação grandiosa a cada nova página dO Continente. Os momentos de guerra, as reviravoltas e conflitos de cada personagem, o modo como o tempo (e o vento) moldam o destino desta família.
A rede Globo fez uma adaptação no final dos anos 1980, mas o tom foi torto. Tomaram a péssima ideia de inverter a narrativa dedicando os primeiros capítulos à disputa no Sobrado (que acontece com Licurgo - neto de Bibiana e Capitão Rodrigo). Só depois - lá pelo episódio quatro - conhecemos Ana Terra e vamos entender a origem daquela família.
No livro, Érico já traz uma fórmula pronta e eficaz: as cenas do Sobrado intercalam-se com os capítulos de cada um dos personagens marcantes desta família. Primeiro evento no Sobrado, guerra, mortos. Pedro Missionário. Sobrado, guerra, entendemos quem é quem. Ana Terra. Nesse ritmo, somos apresentados tanto à origem dos Terra Cambará, como também ao apoteótico clímax dO Continente. Uma narrativa rica, de tirar o fôlego, e com uma qualidade de Érico que muitos deveriam imitar: uma linguagem sem floreio, voltada para a ação e sem gordura.
Terminado o primeiro tomo, embasbacado, de queixo caído, olho em volta e tento entender como essa obra não é apropriada pelos meios audiovisuais tornando-se séries, novelas, filmes. Até, tentaram - como dito - mas sempre num ritmo torto que prejudicam a obra mais do que ajudam a adaptação. Talvez por isso tenham deixado esse diamante de lado. Nada não… volto para o livro na certeza que palavras não dependem de câmeras e orçamentos milionários e na esperança que mais pessoas conheçam esse tesouro de nossa língua.
Deus proteja e guarde Érico Veríssimo e sua obra.

