Quanto vale a vida?
Quando a humanidade para de se reconhecer
Em Crime e Castigo, o magistral Dostoiévski nos faz acompanhar a trajetória de Raskólnikov, o protagonista atormentado da história. Não que tenha a mente tomada por profundo tormento desde o início e esse é só um aspecto do tamanho deste livro. Acompanhamos o “herói” desde seu momento mais lúcido, maquinando, calculando; até a mais profunda loucura, tomado pela culpa.
Pra entender isso é necessário experimentar esse monumento da literatura que é a obra de Dostoiévski, mas, em resumo, Raskólnikov relativiza a vida humana. Ele olha para as pessoas com uma régua de valor dos que fariam alguma falta, dos que têm o direito de viver ou que podem morrer agora, desde já.
No livro, seu alvo é uma “velhota” rica, cuja fortuna salvaria sua penúria. Mas isso não significa dizer que gente idosa tenha a exclusividade desse lugar.
Recentemente, fomos surpreendidos pela notícia de que um rapaz esquizofrênico saltou dentro de uma jaula de leões e lá foi atacado, morto, dilacerado pela leoa. Não estou aqui para discutir o instinto do animal, para falar sobre natureza ou nada disso. Não me interessam coisas do comportamento animal, mas sim do humano.
Fiquei confuso e depois bastante chocado ao ver que mídias sociais oficiais repercutiam muito mais falas e notícias sobre “cuidados com a leoa” do que com o rapaz morto, do que com a família, do que com todo procedimento que poderia e deveria ter sido feito para evitar essa tragédia.
É, mais uma vez, a relativização da vida. Atribuição de diferente valor a depender de quem estamos falando. Tornamo-nos todos Raskólnikovs mensurando a humanidade e avaliando se valemos mais ou menos que uma fera selvagem.
Nas redes oficiais dos envolvidos, técnicos – talvez orientados por especialistas em relações públicas – falaram sobre o bem-estar “pós-traumático” da felina, enquanto nos comentários uma multidão respirava aliviada: ainda bem que a assassina passa bem.
Assassina, inclusive, foi o termo que usei em meu vídeo sobre o assunto. Foi um uso coloquial em um conteúdo que não tem pretensão técnica e muito menos objetivava falar do bicho por si. Lá, como aqui, o foco era a dignidade humana. Isso está muito claro, aliás. Porém, no mundo maluco de hoje, não basta ser claro! O uso do termo serviu de escape para que os relativistas voltassem seus canhões.
Não há problema no uso do termo: fera assassina é um uso consagrado seja na literatura ou fora dela. O problema é dizer que a leoa vale menos que um rapaz esquizofrênico. Suspeito que, se perguntado, cada um destes iria dizer que matar a leoa antes do ataque seria uma medida extrema demais.
Veja bem… estamos falando de um homem, de um ser humano, prestes a ser atacado por uma leoa. Houve tempo para que pessoas sacassem celulares, houve espaço para que a leoa atravessasse o espaço, que se posicionasse aos pés da árvore onde o rapaz estava. Houve tempo!
Mas era um esquizofrênico…
E se fosse eu? Tá, sei que muitos dirão que nada muda. Mas e se fosse você? Se fosse um familiar… se fosse seu político de estimação?
“Ah, mas ele nunca…”. Eu perguntei: SE!
E se?
Eu não sou Raskolnikóv, não agora, não como o encontramos no começo do livro. E assim como ele também passei pela minha penúria, amarguei a vida até aprender o óbvio. A vida humana não é relativa e ela é infinitamente superior a qualquer outra que você imaginar. Não importa se era um estranho, um bandido, um marginal, um esquizofrênico… continua sendo humano.
Não estou considerando guerras justas, não estou falando também de homens que atentam contra a vida de outros homens. Falo de alguém — um esquizofrênico, um marginal, eu, você — preso com os leões. Sem defesa, entregue às feras.
Quando perdemos nossa bússola? Em que momento da história colocamos o dragão no trono e prendemos a princesa no fosso?
E muitos ainda verão essa exclusiva defesa da vida humana como loucura. Como influência “maluca” do pensamento cristão. Bem disse o apóstolo: parecerá mesmo loucura!


A roda das gerações continua a girar, mas os erros de tempos passados seguem se repetindo, mudamos apenas a roupagem da barbárie. É o reflexo da nossa necessidade de simplificar a realidade e transformar a tragédia alheia em virtude própria. Em um tempo doente, demonstrar cuidado com um pobre animal rende mais cliques do que encarar a própria miséria. A humanidade continua preferindo apedrejar a prostituta para esquecer que não é menos suja do que ela.
Essa relativização da vida humana é deprimente e desesperadora.